Sexta-feira, 25 de setembro de 2020
informe o texto

Notícias | Cultura

Fechado há 10 anos, teatro do IFMT está com obra abandonada

Atores lamentam estado de local que revelou talentos; diretor diz que obra será retomada em 2020

08 Dez 2019 - 10:40

VITÓRIA GOMES DA REDAÇÃO - MÍDIANEWS

Fechado há 10 anos, teatro do IFMT está com obra abandonada

Victor Ostetti/MidiaNews

Há mais de 10 anos com as portas fechadas, o Teatro Hélio Vieira do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), que já foi berço de inúmeras figuras da dramaturgia mato-grossense, agora luta para ter suas obras retomadas.

 

O palco que já foi usado por estudantes dar voz às suas angústias, opiniões e criatividade, agora se resume a um amontoado de escombro e entulho. No local, a reportagem se deparou com uma imagem de abandono, com cadeiras velhas e peças enferrujadas espalhadas pelo chão.

 

“Pra que serve um teatro? É para fazer as pessoas enxergarem suas próprias mazelas, questionarem os seus governantes. Então, quando você fecha um teatro, você cala a boca do povo, você enfraquece a voz, o coro”, afirma o ex-aluno e ator Eduardo Butakka, cuja carreira nasceu naquele palco.

 

Quando anunciada a reforma, a ideia era construir uma estrutura melhor e maior para aqueles que acompanhavam a história do teatro.

 

No entanto, para Butakka, o anúncio das reformas veio acompanhado de um pouco de desesperança, como se aquele fosse, na verdade, o comunicado do fim de uma era das artes cênicas no instituto.



“Algo me dizia que esse teatro não iria ser reaberto tão cedo. Me pego pensando no ‘e se’. E se nós só tivéssemos reformado as poltronas velhas, trocado algumas lâmpadas? Talvez, nesse caso, o teatro ainda estivesse aberto”, lamenta.

 

“Pessoal do Ânima”

 

Butakka foi um dos artistas que descobriu sua vocação durante as aulas de artes no IFMT. Ele, assim como muitos outros, encontrou sua subjetividade e seu talento durante as produções e apresentações de peças que aconteciam no teatro quando o local ainda estava de pé.

 

O ator fazia parte do grupo de teatro “Pessoal do Ânima”, fundado em 1987 pelo professor Gilberto Nasser, que deu vida ao que seria um dos maiores movimentos artísticos que aconteceu em Mato Grosso até hoje.

 

“Por aí, passaram mais de cinco mil pessoas. Nós criamos festivais de teatro, formamos cenógrafos, maquiadores, atores, figurinistas. O teatro do IFMT foi a casa de toda essa manifestação. Lá, a gente funcionava sem nenhum tostão. Tudo na base do coração, da doação pessoal”, conta Nasser.

 

A primeira peça apresentada pelo grupo foi “Sintonia poética Nº 1 em Drummond maior”. Segundo Nasser, esse foi o pontapé inicial para as outras 120 peças, escritas, produzidas, dirigidas e atuadas pelos integrantes do movimento nos 30 anos do grupo.

 

Com apresentações que enchiam as cadeiras do teatro, o Ânima era composto por adolescentes falando com adolescentes, subindo ao palco para expressar as vozes da geração, de forma poética, lúdica ou de qualquer forma que pudessem.

 

“Naquela época, nós tínhamos muita liberdade. Não existia nenhum tipo de censura, podíamos fazer o que quiséssemos e o público iria avaliar”, relembra Butakka.

 

A liberdade e incentivo aos alunos deram muito certo. Tanto que peças como “Hã?!... Alienada, eu?!”, que ficou 10 anos em cartaz, e “Segredos de Liquidificador”, até hoje apresentada, marcaram a história das produções teatrais mato-grossenses.

 


O abandono

 

Ao se formar no IFMT, Eduardo Butakka assumiu o cargo de coordenador das oficinas de teatro, junto com seu antigo professor Gilberto Nasser. Ele acompanhou de perto os últimos momentos do teatro.

 

“Nessa época, o teatro já estava muito debilitado. Era poltrona quebrada, falta de iluminação, som. Nós tínhamos que nos virar. Eu já tinha medo, tanto que fui um dos responsáveis por prorrogar esse fechamento várias vezes”, explica.

 

Em 2009, o teatro que já estava fechado para o público externo há 2 anos, fechou suas portas oficialmente para começar sua reforma, e assim o grupo Ânima e os alunos do IFMT perderam a sua "casa".

 

No começo do projeto, por mais que estivessem reticentes, os integrantes e coordenadores do grupo de teatro continuaram a fazer seu trabalho. No entanto, já não existiam as aulas práticas e os alunos não poderiam ter a experiência completa sobre as artes cênicas.

 

O grupo Ânima ainda teve o desafio de encontrar um novo lugar para apresentar suas peças, já que, na época, o Cine Teatro de Cuiabá, assim como o Teatro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), não estavam abertos para recebê-los. Para Butakka, foi como voltar a estaca zero.

 

“Sabe o que é você sentar com seus colegas e falar, ‘E agora? A gente para ou continua?’. Mais de 70% falaram que não queriam mais. Foi um balde água fria”, relata.

 

Após um ano de obra, a reforma do IFMT parou por problemas com a empresa contratada e irregularidades no planejamento.

 

O instituto montou uma comissão, junto com os artistas regionais, para acompanhar e orientar os próximos passos da obra, porém, segundo Butakka, aquela foi "uma ação figurativa, feita para acalmar os ânimos dos que pediam resultados".

 

Briguei sozinho, de dentro pra fora. E de dentro para fora minhas forças foram sendo minadas. Quanto mais o teatro ficava inativo, mais eu perdia minha voz, até que fiquei mudo e decidi sair calado

“Briguei sozinho, de dentro pra fora. E de dentro para fora minhas forças foram sendo minadas. Quanto mais o teatro ficava inativo, mais eu perdia minha voz, até que fiquei mudo e decidi sair calado”, relembra Butakka.

 

Para Butakka e Nasser, um dos pontos que mais traz tristeza é pensar que as novas gerações de alunos do IFMT podem nem saber que um dia existiu um teatro que foi sede de várias peças que marcaram a história da instituição.

 

“Sinto tristeza e pena por eles, porque eu cheguei a pegar esses alunos novos de lá. Alunos que eram filhos de uma era sem teatro. Eles questionam muito menos”, afirma Butakka.

 

Ambos também compartilham a angústia que é olhar para os restos que sobraram do teatro. O ator afirma que evita passar pela esquina onde ele está construído para não precisar ver como o lugar está abandonado. Ele diz que é difícil ver um lugar que já lhe trouxe grandes alegrias naquele estado.

 

“Estamos todos muito tristes, porque o teatro está ali na esquina, no Centro da cidade, uma ferida aberta, sendo tomado pelo mato, pelo entulho. De noite, você passa ali e dá até medo. É um lugar que já foi espaço de glória”, afirma Nasser.  

 

Outro lado

 

Ao MidiaNews, o diretor do IFMT, Cristovam Albano, afirmou que os problemas com a reforma do teatro começaram ainda na primeira licitação. Segundo ele, a empresa vencedora não pode assumir as obras por contratempos com as documentações. Dessa forma, a segunda classificada assumiu a obra.

 

Após esse primeiro obstáculo, vários outros apareceram pelo caminho, como as dificuldades com o projeto, problemas com o Corpo de Bombeiros e um embargo da Prefeitura de Cuiabá.

 

Segundo o diretor, tudo isso se somou a complicações da própria empresa responsável, na época chamada Terex, que, por dificuldades financeiras, não conseguiu dar conta da obra, chegando ao ponto de abandonar a reforma.

 

“O instituto correu atrás da regularização da obra. Foi contratado outro projeto, feito outro processo licitatório, regularizamos os alvarás junto à Prefeitura, mas aí nós já não tínhamos orçamento”, explica Albano.

 
Em 2008, o IFMT recebeu R$ 2 milhões para realizar a reforma. A obra começou no ano seguinte e parou no final de 2010. Nessa época, a empresa responsável havia executado 60% da obra física.

 

Atualmente, o diretor afirma que, para finalizar e entregar o Teatro Hélio Vieira pronto, são necessários, no mínimo, R$ 2,5 milhões.

 

“Parte da obra já feita, como o telhado, não pode ser reaproveitado, por isso precisamos fazer de novo. Além disso, tem o acabamento interno e a questão inflacionária, que aumenta o orçamento”, explica.

 

Apesar de tanto tempo de paralisação, o diretor afirma que está otimista de que as obras sejam recomeçadas em fevereiro de 2020 e finalizadas até o final do próximo ano. Albano afirma que recebeu recentemente a confirmação de que terá o dinheiro necessário para finalizar a reforma.

 

Com a documentação toda regulamentada, ele afirma que nada mais impede a retomada das obras.

 

Aulas de teatro

 

Butakka e Nasser dizem torcer pela retomada da reforma, uma vez que, com o Teatro Hélio Vieira reerguido, há chance de retomada das aulas de teatro, que estão paradas há três anos.

 

“Eu tenho esperança quando vejo essa movimentação da imprensa e das pessoas falando sobre [a retomada da obra]. Tenho esperanças. Ainda quero estar lá nessa estreia, na plateia ou no palco. De preferência no palco”, afirma Butakka.

 

Vídeo mostra imagens dos espetáculos apresentados no teatro:

0 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do site. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

 
Sitevip Internet