Quarta-feira, 3 de março de 2021
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Livro aborda mudanças organizacionais no rap através das transformações da sociedade

24 Jan 2021 - 14:01

Por Felipe Mascari | RBA

A sociedade passa por diversas mudanças, ano após ano, seja culturalmente, nas suas formas de organização, e até em novos métodos de trabalho. Essas transformações influenciam outros segmentos, entre eles o Hip-Hop, o rap e suas batalhas de MCs. Diante disso, o cientista social Felipe Oliveira Campos, conhecido como Felipe Choco, lançou o livro Rap, Cultura e Política: Batalha da Matrix e a Estética da Superação Empreendedora, que aborda a influência digital e mercadológica dentro dessa cultura.

Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Afro-América (Nepafro), Choco faz uma análise da sociedade contemporânea usando como pilar a Batalha da Matrix realizada em São Bernardo do Campo, desde 2013, e considerada referência no duelo entre MCs. A resistência do evento, alvo de repressão policial e da gestão municipal, foi o ponto de partida para o autor.

 

“Quando me coloco de frente com a Batalha da Matrix, ela me propõe várias questões que podem ser aprofundadas, podendo entende-la além do contexto das batalhas, como espaços públicos nas cidades”, explica. “Quando a Batalha da Matrix surgiu, eu fazia parte do Fórum do Hip-Hop de São Bernardo do Campo, e mediei os conflitos com o Poder Público. Diante disso, percebi que os conflitos que a batalha criava ao ocupar o espaço público, levantava questões de interesse geral. Portanto, usei a Batalha da Matrix como forma de entender o Brasil contemporâneo”, acrescentou Choco.

 

Em 2018, a RBA noticiou a repressão sofrida pela batalha do ABC Paulista. Na ocasião, a gestão do prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB), tentava “boicotar” o tradicional evento de rap da cidade, através de uma cobrança de taxa para utilização da Praça da Matrix, no centro da cidade. Em diversos momentos, o rapper Emicida foi ao local prestar apoio aos jovens.

Transformações sociais

Enquanto a sociedade vê novas formas de organização, o rap também se adequa à essas transformações. O escritor compara a profissionalização dos artistas e das batalhas à industrialização da cidade de São Bernardo do Campo e a Posse Hausa, organização negra fundada na década de 1990, voltada ao movimento Hip-Hop, cujo a maioria dos integrantes eram trabalhadores da indústria do ABC Paulista.

Com a reforma trabalhista de 2017, pelo então presidente Michel Temer (MDB-SP), Felipe Choco explica que a dinâmica social também mudou dentro da cultura Hip-Hop. “Hoje, os organizadores da Batalha da Matrix fazem parte do setor de serviços, sem estabilidade e sem proteção social. Portanto, a saída financeira, entre os organizadores, foi a profissionalização do evento. Isso se aplica para toda a cultura.”

O principal exemplo, utilizado pelo autor, dessas transformações sociais e econômicas no rap é a carreira de Emicida. Oriundo da Batalha do Santa Cruz, disputada zona sul de São Paulo, o rapper emergiu utilizando o principal método de rimas dos duelos: as punchlines – em português, linhas de soco, usadas para impressionar o ouvinte.

Após o sucesso, o rapper criou seu próprio selo musical: a Laboratório Fantasma. “O Emicida criou um horizonte de organizar a própria carreira, sem precisar passar pelo crivo das distribuidoras. Ou seja, é a democratização da produção, distribuição e consumo da música”, disse Choco, que lembra que a apresentação do livro é assinada pelo MC.

Estética da superação empreendora

A partir do fenômeno alcançado por Emicida, o cientista social aponta a criação de uma nova estética dentro do rap: a da superação empreendedora. Segundo ele, essa vertente permite a liberdade criativa e a autonomia financeira, criando um estilo de organização empresarial.

“Essa superação não significa negar o passado da cultura, mas avançar no sentido mercadológico, criando uma marca em torno do artista”, explicou. O autor cita uma fala de Mano Brown, integrante do Racionais, onde o rapper aponta que o mercado fonográfico deixou de ser apenas a comercialização da música, mas também imagem e posicionamento dos MCs.

Essa estética cria uma nova noção de trabalho e organização, segundo o autor. “Se a gente fizer um paralelo com o mercado industrial, na década de 1990, o trabalho estava em contraposição ao capital, onde a organização da força de trabalho buscava sua valorização. Agora, diante da informalidade e a imposição de que ‘cada um é empreendedor de si’, os artistas se tornam o próprio capital empresarial”, reitera.

Porém, essa superação empreendedora não passa só pelos rappers e novos selos independentes, mas também atinge as batalhas de MCs, incluindo a da Matrix. Com a ascensão das plataformas de streaming, como o YouTube, os duelos se tornaram mais digitais, alcançaram novos públicos e criaram um novo mercado.

“A Batalha da Matrix é um produto dessa condição que as batalhas se tornaram. Antes da pandemia, ela mobilizava, toda terça-feira, mil pessoas na praça. As batalhas têm papel fundamental em mutações e reinvenções da cultura, como foi com a punchline, dando um novo respiro em como fazer e organizar o rap. Essas mudanças que ocorrem no rap não vieram do nada, são frutos da transformações sociais”, conclui Felipe.

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